Clube do Vinil

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É triste chegar a um ponto do desenvolvimento cultural em que claves de sol são confundidas com cifrões.

O Clube do Vinil em Campinas começou como um oásis na cena musical de Campinas, e foi além. Com a iniciativa de disponibilizar a um público mais amplo sua coleção de mais de 10.000 bolachões, Charles (como é conhecido o renomado produtor musical Carlos Leitão) criou um núcleo de atração artística e cultural que ultrapassou os limites da música.

A rotação dos discos criou em sua órbita um ambiente propício à vida cultural. As trocas de informações entre diferentes formas de produção intelectual e artísticas por várias vezes fez germinar novos projetos: músicos formaram bandas, fotógrafos e autores literários desenvolveram projetos conjuntos, pintores discutiram políticas culturais com cientistas sociais, apenas para citar alguns exemplos de vários outros entre a diversas combinações que formaram um ambiente de interação propício ao desenvolvimento do pensamento livre.

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Com a criação dessa rica atmosfera artística, o Clube do Vinil começou a dar vôos mais altos. Além da audição dos discos o lugar começou a abrigar exposições e a dar oportunidade para músicos que careciam de espaço para apresentar seus trabalhos, a última iniciativa acolheu professores e alunos de música da Unicamp que nas últimas semanas tomavam conta das noites de terça.

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Infelizmente, como tudo o que existe no nosso modelo de sociedade, mesmo essa liberdade acabou aprisionada por uma ambição puramente financeira, a qual está colocando de novo em risco a existência desse espaço. Nós que sabemos o valor da arte e da cultura no enriquecimento daquilo que temos de mais humano não podemos nos calar ao ver novamente as notas musicais silenciarem em função das notas de dinheiro, estaremos sempre na resistência a tudo aquilo que amesquinha o Ser Humano. Força, Charles!

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A Fotografia como as Janelas de Baudelaire

BolhaAs Janelas – Charles Baudelaire (*tradução livre)

Aquele que olha de fora através de uma janela aberta, não vê jamais tantas coisas quanto aquele que olha uma janela fechada. Não existe objeto mais profundo, mais misterioso, mais fecundo, mais tenebroso, mais deslumbrante (ofuscante*) que uma janela iluminada por uma vela. Aquilo que se pode ver ao sol é sempre menos interessante que o que se passa atrás de um vidro. Neste buraco negro ou luminoso vive a vida, sonha a vida, sofre a vida.

Para além das ondas de telhados, eu percebo uma mulher madura, já enrugada, pobre, sempre debruçada sobre alguma coisa, e que nunca sai. Com o seu rosto, com suas roupas, com seu gesto, com quase nada, eu refaço a história dessa mulher, ou melhor sua lenda, e às vezes eu a conto a mim mesmo chorando.

Se tivesse sido um pobre velho homem, eu teria feito a sua também facilmente.

E eu me deito, orgulhoso por ter vivido e sofrido em outros que em mim mesmo.

Talvez você me diria: “Você está certo de que essa lenda seja verdadeira?” O que importa aquilo que possa ser a realidade situada fora de mim, se ela me ajudou a viver, a sentir que existo e quem eu sou?

A Fotografia como as Janelas de Baudelaire.

O trabalho do fotógrafo é construir janelas para realidade, as quais nunca estão, porém, totalmente abertas. Cada espectador de uma fotografia se depara com uma dupla barreira que o impede de entrar naquilo que lhe é apresentado. Entre seus olhos e a cena observada se colocam a cortina da subjetividade do fotógrafo e os limites da moldura imposta pela câmera.

Na medida em que não podemos passar a cabeça para o outro lado da janela, que não temos uma visão mais ampla do que acontece de fato dentro da imagem que nos é apresentada, tentamos transgredir a barreira que nos foi imposta através da especulação, imaginamos o sentido daquilo que pelos olhos tivemos um acesso limitado.

As boas fotografias são aquelas que nos fazem chegar bem perto do vidro da janela, perto o suficiente para que na nossa tentativa de entender o que se vê nos deparemos com o nosso próprio reflexo. Se a imagem fotográfica tem alguma possibilidade de postular um estatuto de arte, este é o ponto: ela deve despertar a imaginação de tal maneira que mostre ao espectador mais sobre ele mesmo do que aquilo que seus olhos vêem.

Concreto

Fotografia e Fantasia

Habana

Uma das recordações mais vivas que guardo da época de estudante do ensino fundamental eram as aulas de redação. Durante um bom tempo pensei em me tornar um escritor tal o prazer que sentia ao passar para o papel o que vivia em minha imaginação.

Esse sentimento cresceu muito quando Dona Tânia, a professora, chegou com um novo material que consistia na apresentação de um tema e uma fotografia a partir dos quais o texto deveria ser desenvolvido. Na verdade, o que mais guardei na memória foram as fotografias, com o passar do tempo já nem estou mais certo se havia um tema específico passado por escrito.

Essa lembrança me veio com muita intensidade depois de ler o texto “Na Caverna de Platão”, de Susan Sontag, um dos quais compõem seu livro “Ensaios Sobre a Fotografia”, exatamente por vir ao encontro de questões que ainda se põem de maneira caótica na minha cabeça de fotógrafo.

Como toda pessoa que se aprofunda no ato de fotografar, sobretudo com um viés mais voltado para cenas cotidianas, a relação entre a imagem capturada e a realidade se impõe de maneira incontornável, imagine então para um cientista social de formação. Soma-se ainda a essa questão um problema quase filosófico com o advento da imagem digital, com a qual se perde a relação morfogenética da fotografia com o real – este não é mais inscrito em uma película de filme por meio da luz, agora ele é “interpretado” e codificado pelo aparelho fotográfico.

Algo que encontrei de maneira clara no texto e que eu não conseguia articular em argumentos foi a ideia de que a fotografia por si só jamais pode explicar a realidade. Além da pretensa apresentação do real passar pelo crivo da subjetividade do fotógrafo, o qual define o ângulo pelo qual mostrar o objeto de sua foto, o enquadramento (definição do que deve ou não ser mostrado no “recorte” de realidade), entre tantos outros pontos que fazem parte da composição da imagem, a maneira pela qual chega ao seu público também distorce e afasta qualquer possibilidade de explicação do que quer que seja por parte apenas da fotografia.

Ao fragmentar, embaralhar e apresentar de forma aleatória a realidade (espaços distantes apresentados em sequência; tempos distintos apresentados simultaneamente), a fotografia se mostra incapaz de explicar por si mesma a realidade. Antes que revelar o real, ela o oculta. Nesse sentido, poderíamos dizer que a era digital veio para sepultar de vez qualquer vestígio de realidade que a fotografia pudesse pretender carregar consigo. Com ela, além de aumentar exponencialmente o número de peças-imagens do caótico quebra-cabeças que reconstituiria a realidade, os meios e as maneiras de combiná-las se tornaram muito mais vastos.

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Que ideia alguém que nunca foi ao Rio de Janeiro pode ter da cidade através de um álbum de viagem postado por um amigo em uma rede social tanto quanto ao seu tamanho real e configuração espacial quanto do ritmo de vida das pessoas que lá vivem? Este espectador está refém daquilo que seu amigo achou mais interessante, ou mais diferente, ou às vezes mesmo do que ele quis transmitir sobre si próprio – mostrou festas? Museus? Restaurantes refinados? Quiosques à beira da praia?

Aqui chegamos ao ponto que inconscientemente foi sempre o que mais me fascinou pela fotografia: ela pode ser pura fantasia. A imagem fotográfica é um convite à dedução, à especulação, ou seja, à imaginação. Podemos não saber nada de concreto sobre determinado lugar ou situação, mas ao olhar uma foto imaginamos tudo.

Hoje revisito minhas aulas de redação da infância andando no caminho inverso. Sinto que tudo o que eu li, tudo o que leio tem uma influência determinante na minha maneira de fotografar. Comecei nesta profissão pensando em escrever crônicas através de imagens e hoje não só me conformei como acho muito mais divertido fazer ficção através da fotografia. Isso vale também na condição de expectador, algo que desenvolverei mais adiante em um novo texto, a imagem fotográfica como As Janelas para Baudelaire: “O que importa aquilo que possa ser a realidade situada fora de mim, se ela me ajudou a viver, a sentir que existo e quem eu sou?”.

Metamorphosis

Viviendo en una película de Tarantino: México

(Fotos tiradas com celular)

Desayuno en un restaurante chino:

Foto: Allan S.Ribeiro - Tarantino a la Mexicana
Foto: Allan S.Ribeiro – Tarantino a la Mexicana
Foto: Allan S.Ribeiro - Tarantino a la Mexicana
Foto: Allan S.Ribeiro – Tarantino a la Mexicana

El mariachi:

Foto: Allan S.Ribeiro - Tarantino a la Mexicana
Foto: Allan S.Ribeiro – Tarantino a la Mexicana
Foto: Allan S.Ribeiro - Tarantino a la Mexicana
Foto: Allan S.Ribeiro – Tarantino a la Mexicana
Foto: Allan S.Ribeiro - Tarantino a la Mexicana
Foto: Allan S.Ribeiro – Tarantino a la Mexicana
Foto: Allan S.Ribeiro - Tarantino a la Mexicana
Foto: Allan S.Ribeiro – Tarantino a la Mexicana
Foto: Allan S.Ribeiro - Tarantino a la Mexicana
Foto: Allan S.Ribeiro – Tarantino a la Mexicana