A Fotografia como as Janelas de Baudelaire

BolhaAs Janelas – Charles Baudelaire (*tradução livre)

Aquele que olha de fora através de uma janela aberta, não vê jamais tantas coisas quanto aquele que olha uma janela fechada. Não existe objeto mais profundo, mais misterioso, mais fecundo, mais tenebroso, mais deslumbrante (ofuscante*) que uma janela iluminada por uma vela. Aquilo que se pode ver ao sol é sempre menos interessante que o que se passa atrás de um vidro. Neste buraco negro ou luminoso vive a vida, sonha a vida, sofre a vida.

Para além das ondas de telhados, eu percebo uma mulher madura, já enrugada, pobre, sempre debruçada sobre alguma coisa, e que nunca sai. Com o seu rosto, com suas roupas, com seu gesto, com quase nada, eu refaço a história dessa mulher, ou melhor sua lenda, e às vezes eu a conto a mim mesmo chorando.

Se tivesse sido um pobre velho homem, eu teria feito a sua também facilmente.

E eu me deito, orgulhoso por ter vivido e sofrido em outros que em mim mesmo.

Talvez você me diria: “Você está certo de que essa lenda seja verdadeira?” O que importa aquilo que possa ser a realidade situada fora de mim, se ela me ajudou a viver, a sentir que existo e quem eu sou?

A Fotografia como as Janelas de Baudelaire.

O trabalho do fotógrafo é construir janelas para realidade, as quais nunca estão, porém, totalmente abertas. Cada espectador de uma fotografia se depara com uma dupla barreira que o impede de entrar naquilo que lhe é apresentado. Entre seus olhos e a cena observada se colocam a cortina da subjetividade do fotógrafo e os limites da moldura imposta pela câmera.

Na medida em que não podemos passar a cabeça para o outro lado da janela, que não temos uma visão mais ampla do que acontece de fato dentro da imagem que nos é apresentada, tentamos transgredir a barreira que nos foi imposta através da especulação, imaginamos o sentido daquilo que pelos olhos tivemos um acesso limitado.

As boas fotografias são aquelas que nos fazem chegar bem perto do vidro da janela, perto o suficiente para que na nossa tentativa de entender o que se vê nos deparemos com o nosso próprio reflexo. Se a imagem fotográfica tem alguma possibilidade de postular um estatuto de arte, este é o ponto: ela deve despertar a imaginação de tal maneira que mostre ao espectador mais sobre ele mesmo do que aquilo que seus olhos vêem.

Concreto

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