Fotografia e Fantasia

Habana

Uma das recordações mais vivas que guardo da época de estudante do ensino fundamental eram as aulas de redação. Durante um bom tempo pensei em me tornar um escritor tal o prazer que sentia ao passar para o papel o que vivia em minha imaginação.

Esse sentimento cresceu muito quando Dona Tânia, a professora, chegou com um novo material que consistia na apresentação de um tema e uma fotografia a partir dos quais o texto deveria ser desenvolvido. Na verdade, o que mais guardei na memória foram as fotografias, com o passar do tempo já nem estou mais certo se havia um tema específico passado por escrito.

Essa lembrança me veio com muita intensidade depois de ler o texto “Na Caverna de Platão”, de Susan Sontag, um dos quais compõem seu livro “Ensaios Sobre a Fotografia”, exatamente por vir ao encontro de questões que ainda se põem de maneira caótica na minha cabeça de fotógrafo.

Como toda pessoa que se aprofunda no ato de fotografar, sobretudo com um viés mais voltado para cenas cotidianas, a relação entre a imagem capturada e a realidade se impõe de maneira incontornável, imagine então para um cientista social de formação. Soma-se ainda a essa questão um problema quase filosófico com o advento da imagem digital, com a qual se perde a relação morfogenética da fotografia com o real – este não é mais inscrito em uma película de filme por meio da luz, agora ele é “interpretado” e codificado pelo aparelho fotográfico.

Algo que encontrei de maneira clara no texto e que eu não conseguia articular em argumentos foi a ideia de que a fotografia por si só jamais pode explicar a realidade. Além da pretensa apresentação do real passar pelo crivo da subjetividade do fotógrafo, o qual define o ângulo pelo qual mostrar o objeto de sua foto, o enquadramento (definição do que deve ou não ser mostrado no “recorte” de realidade), entre tantos outros pontos que fazem parte da composição da imagem, a maneira pela qual chega ao seu público também distorce e afasta qualquer possibilidade de explicação do que quer que seja por parte apenas da fotografia.

Ao fragmentar, embaralhar e apresentar de forma aleatória a realidade (espaços distantes apresentados em sequência; tempos distintos apresentados simultaneamente), a fotografia se mostra incapaz de explicar por si mesma a realidade. Antes que revelar o real, ela o oculta. Nesse sentido, poderíamos dizer que a era digital veio para sepultar de vez qualquer vestígio de realidade que a fotografia pudesse pretender carregar consigo. Com ela, além de aumentar exponencialmente o número de peças-imagens do caótico quebra-cabeças que reconstituiria a realidade, os meios e as maneiras de combiná-las se tornaram muito mais vastos.

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Que ideia alguém que nunca foi ao Rio de Janeiro pode ter da cidade através de um álbum de viagem postado por um amigo em uma rede social tanto quanto ao seu tamanho real e configuração espacial quanto do ritmo de vida das pessoas que lá vivem? Este espectador está refém daquilo que seu amigo achou mais interessante, ou mais diferente, ou às vezes mesmo do que ele quis transmitir sobre si próprio – mostrou festas? Museus? Restaurantes refinados? Quiosques à beira da praia?

Aqui chegamos ao ponto que inconscientemente foi sempre o que mais me fascinou pela fotografia: ela pode ser pura fantasia. A imagem fotográfica é um convite à dedução, à especulação, ou seja, à imaginação. Podemos não saber nada de concreto sobre determinado lugar ou situação, mas ao olhar uma foto imaginamos tudo.

Hoje revisito minhas aulas de redação da infância andando no caminho inverso. Sinto que tudo o que eu li, tudo o que leio tem uma influência determinante na minha maneira de fotografar. Comecei nesta profissão pensando em escrever crônicas através de imagens e hoje não só me conformei como acho muito mais divertido fazer ficção através da fotografia. Isso vale também na condição de expectador, algo que desenvolverei mais adiante em um novo texto, a imagem fotográfica como As Janelas para Baudelaire: “O que importa aquilo que possa ser a realidade situada fora de mim, se ela me ajudou a viver, a sentir que existo e quem eu sou?”.

Metamorphosis